Hipermodernidades – Por Luís Filipe Sarmento

As complexas paisagens sociais do presente levam a uma perda constante dos sentidos: já não há discursos que tranquilizem nem sequer as «overdoses» do palavreado vazio da espiritualidade cujos protagonistas exibem despudoradamente a ingenuidade da ignorância. Tudo passa por consumos excessivos que as modas impõem. Nunca se viu tantos líderes espirituais, tantos gurus, tantos manipuladores do futuro. O hiperconsumo dos anseios espirituais revela o obscuro universo daqueles que passam a vida a desejar «muita luz, muita luz no teu caminho» a troco de uma nota de cinquenta ou de cem euros. Aceder ao plano da transcendência está cada vez mais caro. Paga-se com o despautério o futuro que nunca chega em forma de folheto de agência de viagens. A hora de uma consulta ilusiona a fome nocturna. A moda dessubstancializa o ser, infantiliza-o com as suas «fraldas» de marca, seja um deus, uma gravata, um relógio, uma carteira, um carro, uma casa, um bairro, um lugar de férias, um sonho; o selo é uma assinatura «divina» que conquista o fiel crente que consome o que os estrategas do hiperconsumo lhe enfiam pelos olhos. A sacralização do privado exibido no domínio público levou à fractura da solidariedade que as ideologias humanistas estruturadas defendiam. A promoção de uma tal sociedade mais flexível num mundo de diversidades conduziu o ser a um individualismo hipermoderno através do consumo desenfreado de emblemas como se eles sustentassem o corpo da dignidade humana numa ilusória ascensão de classe. E, assim, tudo se consome sem resistência. O capital é derramado nas estruturas mascaradas dos mercados financeiros porque eles próprios são discurso da moda agiota. A crítica inteligente deixou de ser olhada como modelo, passando a um consumo opcional e dando lugar a uma híper-intoxicação que credibiliza o discurso das ciências ocultas como portal de felicidade, institucionalizando a fraude no seio dos pobres de espírito. Sabemos, hoje, de que se riem os cleptocratas do Ocidente e porque se opõem a um ensino público de qualidade e a uma educação de excelência. Na oração do submisso sustenta-se a híper-riqueza do canalha. Todo o passado é reciclado em fun- ção das novas exigências do consumo, da festa, da exuberância, que falseia a possibilidade de cada um na ribalta do poder. Na sua relação com a vida doméstica, mulheres e homens reinventaram novos espaços de tarefas individuais num consumo do tempo que impõe uma nova ordem que implica consequentemente uma nova estética da vida comum. Não se trata tanto de uma reciclagem dos valores do passado, mas de uma transformação radical nos meios mais informados, mais cultos e, necessariamente, não conservadores. Infelizmente, no mundo do trabalho, a maioria das entidades patronais, em nome da gula de poder, impossibilita esta transição num universo hipermoderno que estabilize a indiferenciação de géneros no exercício de todas as funções e responsabilidades.

O mundo avança entre o bem e o mal. E as forças conservadoras e reaccionárias, ao perceberem o perigo que tais mudanças implicavam nas lideranças que lhes são favoráveis, querem fazer recuperar velhos conceitos de escravização moderna e humilhação que o tempo histórico não perdoará. Desenvolver não é destruir. Criar não é aniquilar. Evoluir não é exterminar. Os grandes avanços tecnológicos deveriam ter como objectivo no universo humano o alívio do esforço de homens e mulheres para que as suas vidas fossem recuperadas na aplicação cultural dos novos tempos. Mas as chamadas elites empedernidas em poderes herdados utilizam as novas tecnologias como arma mortífera ao serviço do desejo. Desejo pornográfico e de prazer viciado que o domínio sobre homens e mulheres encerra, o que retrata a debilidade do carácter infectado por falsos pergaminhos de apelidos que, na maioria dos casos, ocultam actos de pirataria, traição e assassínio. Ou seja, toda uma história do crime organizado que tem vindo a sustentar os poderes há séculos. Modernizar já não é sinónimo de qualidade humana, antes pelo contrário. Os «valores tecnológicos» estão a fazer definhar os valores humanos, conduzindo as sociedades para um espaço vazio, para uma terra de ninguém, para uma ideia do nada, para um niilismo aberrante. E se alguns pensadores acreditavam que os valores dos direitos humanos não iriam tremer e cair perante a hipocrisia das sociedades tecnológicas e da abastança de minorias, veja-se o exemplo dos refugiados da destruição do Médio Oriente cuja recepção é negociada com ditadores como se fosse gado para abater em diferentes matadouros. E quem assina estes contratos são os líderes europeus de raiz conservadora e reaccionária em aliança com falsos socialistas que, em nome da sua prosperidade particular, traíram os princípios e valores humanistas que estiveram na sua origem. E se antes havia, mesmo nas chamadas elites, uma vontade pelo saber, hoje, na sociedade do espectáculo, a sua preocupação foca-se na imagem da aparência e na preocupação de agradar e de se ser reconhecido, não por uma obra realizada, mas pelo simples prazer de se ser reconhecido por coisa nenhuma. E o que é paradoxal é que o reconhecimento é feito entre proxenetas e vampiros com o aplauso da população que ajuda a fomentar esse tipo de reconhecimento ao gastar o pouco que tem na aquisição de meios de comunicação que produzem e promovem estes eventos que coroam inexistências sociais, políticas e culturais.

Este tipo de reconhecimento de hedonistas por hedonistas, profissionais de festas e festivais que alguns meios alimentam nas suas páginas ou ecrãs, apontam para uma vacuidade do entendimento de si-mesmo, conduzindo os seus protagonistas a uma riqueza material, através de uma relação de interesses obscuros, e a uma miséria ética e moral pela ausência de quaisquer valores humanos na sua conduta infame. Tudo parece estar reduzido ao consumo desenfreado de prazeres como um prazer inadiável. E é aqui, neste momento, que o discurso ideológico faz todo o sentido. Em nome de uma democracia inteligente.

Luís Filipe Sarmento

(Artigo publicado na 1º edição da revista “Sem Equívocos”).

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Foto: José Lorvão

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