A surpresa de Linneo – por Teresa Moure Pereiro

 

A SURPRESA DE LINEO

 

Dizem mulher e ninguém percebe que classe de animal lá está; agachado trás a palavra. Já classificaram as criaturas que voam com penas e bico, as que nadam com escamas e sangue frio e assim por diante. Porém, quando aparece a mulher, Linneo tem de sentar-se a descansar, esgotado de tanta classificação. Acrescentam que esse animal é feito de carne, nomeadamente duma costela do Adão, embora ninguém encontrasse o osso ímpar que o homem devia conservar se lhe tiraram apenas um para fazer com que a mulher existisse. Dizem mulher a pensar na própria mãe e constroem um relato de abnegação enquanto as mães reais fumam charutos e bebem whisky no pátio traseiro a fazer troça daqueles cientistas que um dia pariram, quando ainda eram novas e menstruavam. Alertados por esse detalhe, dizem mulher e dizem, então, sangue e vísceras. Isso não dá! Insatisfeitos, vão para o dicionário na procura dalguma dica e leem que os gramáticos a definiram como fêmea do homem, animal mamífero e pensante. Passam as páginas para encontrar mamífero. Lá está o que eles próprios tinham dito: o que tem mamas para aleitar as crias. A confusão instala-se no laboratório, visto que o traço definitório da espécie é precisamente aquele de que está desprovido o melhor exemplar, o masculino, o que aparece quando mencionam filósofos, pintores ou estadistas, bispos e até soldados. Dizem mulher, Linneo e a sua equipa científica ao completo, e nem sabem como classificar esse ser malévolo, inconstante e belo, que sim tem mamas, mas não racionalidade; esse ser que arruína a classificação.

−Foi o mesmo com o dragão −exclama um dos peritos− Nem sabíamos o que fazer, lembram?

−Pois é… Que entrem na mesma classe! −propõe o mais parvo.

Concordaram. A mulher entrou na classe dos seres híbridos, indecifráveis e perigosos.

− Tenho sérias dúvidas… Acho que o dragão não existe! −falou Linneo.

A mulher também não. Nem cabia nas ternas premissas da biologia nem em qualquer outra taxonomia e, portanto, não era um animal verdadeiro; não, no mesmo sentido que os demais. Atrapalhava a classificação. Não deveria existir. Desafiava.

 

Teresa Moure Pereiro é romancista e professora de literatura na Universidade de Santiago de Compostela.

 

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